O discurso oficial é bonito: o Brasil quer carros mais limpos, menos poluentes, mais eficientes. A pergunta é o que acontece quando você sai do discurso e vai para a nota fiscal. Spoiler: quem quer um carro elétrico no Brasil descobre que ele também entra na fila da cobrança.
Do zero aos 35% em dois anos e meio
Até o fim de 2023, carros elétricos importados não pagavam imposto de importação. A partir de janeiro de 2024, o governo começou uma escada de aumentos, que chegou ao teto em julho de 2026:
Imposto de importação · carros 100% elétricos
A escada que só sobe
As cotas de importação com isenção valeram até 30 de junho de 2026. Híbridos e híbridos plug-in seguiram escadas parecidas e também chegaram a 35%.
O argumento do governo
É justo apresentar o outro lado. O governo diz que o imposto de importação serve para atrair fábricas e proteger empregos no Brasil: quem produzir aqui paga menos. E o programa Mover criou o chamado IPI Verde, que cobra menos de carros mais eficientes e menos poluentes, independentemente da tecnologia. Montadoras de fato anunciaram produção de híbridos e elétricos no país.
São argumentos reais. Mas, para quem está do lado de cá do balcão, o efeito imediato é um só: o carro mais limpo ficou mais caro.
O que um elétrico paga, do porto até a tomada
- No portoImposto de importação de 35%, se for importado.
- Na fábrica ou na importadoraIPI, agora no modelo “verde”, que varia conforme eficiência e potência.
- Na lojaICMS, PIS e Cofins embutidos no preço final.
- Todo anoIPVA, que depende do estado: isenção, desconto ou alíquota cheia. RECORRENTE
- Na tomadaA energia da recarga também paga ICMS, PIS e Cofins na conta de luz. RECORRENTE
- A partir de 2027Imposto Seletivo, o chamado “imposto do pecado”, que a reforma tributária aplicou aos veículos, sem excluir os elétricos.
Trocaram o imposto da gasolina pelo imposto da tomada. E ainda chamaram de incentivo.
“Imposto do pecado” no carro que não polui?
O Imposto Seletivo foi criado pela reforma tributária para encarecer produtos prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, como cigarro e bebida alcoólica. A Lei Complementar 214/2025 incluiu os veículos nessa lista. E não abriu exceção para os elétricos: eles entram na mesma regra, com alíquotas que devem seguir critérios como eficiência e emissões.
O governo afirma que isso não significa aumento para os elétricos, porque as alíquotas devem premiar os mais eficientes. Pode ser. Mas a mensagem simbólica é difícil de engolir: um carro vendido como solução ambiental entrou na lista de produtos “nocivos”.
O que a gente cobra
- Coerência: se o objetivo é descarbonizar, a tributação precisa apontar na mesma direção, de forma clara e estável.
- Previsibilidade: regras que mudam a cada semestre afastam quem quer planejar a compra.
- Transparência nas alíquotas do Imposto Seletivo para veículos, antes de 2027, com debate público.
- Harmonização do IPVA: o mesmo carro não deveria valer isenção num estado e cobrança cheia no outro.
Fontes para consulta
- Gecex/Camex: resolução sobre o imposto de importação de veículos eletrificados
- Lei 14.902/2024 (Programa Mover e IPI Verde)
- Lei Complementar 214/2025 (Imposto Seletivo)
- Emenda Constitucional 132/2023
Consulta em outubro de 2026. Regras de IPVA para elétricos variam por estado e podem mudar; confira na Secretaria da Fazenda do seu estado.