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MANIFESTO

Correios: o único corredor da pista conseguiu perder a corrida.

Monopólio garantido por lei, a maior rede do país e o Tesouro como fiador. Mesmo assim: R$ 8,5 bilhões de prejuízo em 2025 e mais R$ 5,55 bilhões em seis meses de 2026. E a conta vem para você.
23 de outubro de 2026
7 min de leitura
Contexto + opinião
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Imagine uma corrida com um único corredor. Sem adversário na pista. A lei proibindo qualquer outro de se inscrever. A torcida inteira obrigada a pagar o ingresso. E, no fim, o corredor consegue perder. Para ele mesmo.

Essa corrida existe. Ela se chama Correios.

R$ 8,5 bide prejuízo em 2025. Mais que o triplo de 2024.
R$ 5,55 bide prejuízo só no primeiro semestre de 2026. E o ano ainda não acabou.
–R$ 13,1 bide patrimônio líquido no fim de 2025. A empresa deve mais do que tem.
R$ 12 bide empréstimo com garantia do Tesouro. Se der errado, quem paga é você.

O único corredor da pista

Desde 1978, a lei garante à União, por meio dos Correios, o monopólio do serviço postal: cartas, cartões-postais, correspondência agrupada. Em 2009, o Supremo confirmou esse monopólio. Nenhuma empresa privada pode entregar a sua carta. Nenhuma.

Além disso, os Correios têm a maior rede logística do país, presença em praticamente todos os municípios, uma marca que todo brasileiro conhece desde criança e um acionista que nunca vai à falência: o Tesouro Nacional. Nenhuma empresa privada do Brasil começou uma corrida com tanta vantagem.

Deram ao Estado uma pista sem adversários. Ele tropeçou no próprio cadarço.

A queda, em números

Prejuízo líquido dos Correios · balanços oficiais

Um buraco que só cresce

2024R$ 2,6 bi
2025R$ 8,5 bi
1º sem. 2026R$ 5,55 bi

A empresa registra prejuízo desde o último trimestre de 2022. Em 2026, o valor é só dos primeiros seis meses, 30% acima do mesmo período de 2025.

R$ 16,6 bide prejuízo em dois anos e meio. É como se cada brasileiro tivesse posto quase R$ 80 do próprio bolso numa empresa que tem a lei a seu favor.

O que deu errado

Os Correios têm suas explicações, e é justo ouvi-las. A empresa atribui boa parte do rombo a ações judiciais, principalmente trabalhistas, que somaram R$ 6,4 bilhões em 2025. Cita a queda nas encomendas internacionais depois que as compras de até 50 dólares passaram a pagar imposto de importação, em 2024. E aponta a concorrência feroz no comércio eletrônico, onde não há monopólio.

Tudo isso é verdade. E nada disso responde à pergunta principal: por que uma empresa com monopólio legal, a maior rede do país e o Tesouro como fiador não conseguiu se adaptar, enquanto empresas privadas, sem nenhum desses privilégios, construíram do zero redes de entrega que hoje chegam mais rápido?

A conta judicial bilionária não caiu do céu: ela é fruto de décadas de gestão de pessoal. A queda das encomendas não foi surpresa: o mercado inteiro viu acontecer. E a concorrência no e-commerce existe há mais de dez anos. Teve tempo. Teve dinheiro. Teve vantagem. Faltou gestão.

O que os Correios tinham
O que aconteceu
Monopólio das cartasGarantido por lei e pelo Supremo.
A receita bruta caiu 11,35% em 2025, para R$ 17,3 bilhões.
A maior rede do paísPresença em praticamente todos os municípios.
O plano de reestruturação prevê fechar cerca de mil unidades.
Mais de 80 mil empregadosExperiência e capilaridade.
Só os salários consumiram R$ 5,2 bilhões no primeiro semestre de 2026. O PDV mirou 10 mil e atraiu cerca de 3 mil.
O Tesouro como garantiaUm sócio que não quebra.
Empréstimo de R$ 12 bilhões a 115% do CDI, mais R$ 8 bilhões autorizados e R$ 6 bilhões de aporte previstos até 2027.

E quem paga essa conta?

  1. A empresa pega empréstimoR$ 12 bilhões com cinco bancos, prazo de 15 anos.
  2. O Tesouro garanteSe os Correios não pagarem, a União paga. SEU DINHEIRO
  3. O governo promete aporteR$ 6 bilhões de capital até o fim de 2027, como exige o contrato. SEU DINHEIRO
  4. O TCU acende o alertaEm 2026, o tribunal apontou possível violação da Lei de Responsabilidade Fiscal por falta de verificação independente das premissas do plano.
  5. O cidadão paga duas vezesPaga o imposto que salva a estatal e paga o frete privado quando precisa que a encomenda chegue no prazo.

Quando uma empresa privada erra assim, ela fecha. Quando uma estatal erra assim, ela manda a conta para você.

Não é sobre um governo. É sobre o modelo.

Seria fácil culpar um nome ou um partido. Mas os Correios já viveram crises e prejuízos em governos de cores diferentes, alternando anos ruins e anos de lucro, ao sabor de quem indicava a diretoria. O problema é mais profundo: uma empresa que não pode falir, cuja diretoria muda com a política e cujo prejuízo é sempre coberto pelo contribuinte não tem nenhum incentivo real para ser eficiente.

O debate sobre o futuro da empresa está aberto. Há quem defenda recuperá-la como estatal, argumentando que ela garante entrega em lugares onde nenhuma empresa privada teria lucro. Há quem defenda a privatização ou a abertura de capital, argumentando que só a disciplina de mercado resolve. A decisão depende do Congresso. Mas, qualquer que seja o caminho, uma coisa não dá para aceitar: que o cidadão continue pagando sem saber quanto e sem ver resultado.

O que a gente exige

  • Metas públicas e prazo: se o plano de reestruturação é bom, que tenha metas claras e uma data para o prejuízo acabar.
  • Diretoria técnica, escolhida por competência, não por indicação política.
  • Transparência total sobre quanto do dinheiro público já foi e ainda será usado para cobrir o rombo.
  • Um debate honesto sobre o modelo, sem tabu ideológico, de nenhum dos lados.

O Estado brasileiro teve tudo para vencer essa corrida. Pista livre, regra a favor, torcida pagante. Perdeu sozinho. E a gente, que não correu, é quem vai pagar a inscrição da próxima.

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