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A CONTA DA ESTRADA

Paguei a multa, o IPVA e o pedágio. O buraco continua lá.

R$ 90,7 bilhões de IPVA em um ano, pedágio em cada praça, multa no radar. E 62% das rodovias ainda fora do estado bom. Fizemos a conta de quem paga e de quem entrega.
23 de outubro de 2026
7 min de leitura
Contexto + opinião
Carro
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Janeiro chega e, com ele, o boleto do IPVA. Você paga. No meio do ano, a notificação de multa aparece no aplicativo. Você paga. Na viagem de feriado, a cancela do pedágio sobe depois do Pix. Você paga. E, voltando para casa, o pneu cai no mesmo buraco que estava lá no ano passado.

Esta é a conta que todo motorista brasileiro conhece de cor. A pergunta é: se a gente paga tanto e de tantos jeitos, por que a estrada continua assim?

R$ 90,7 biarrecadados com IPVA no Brasil em 2025, segundo o IBPT.
129,1 miveículos em circulação no país no fim de 2025.
62%das rodovias avaliadas pela CNT em 2025 não estavam em estado bom ou ótimo.
2.144pontos críticos encontrados nas estradas: buracos, quedas de barreira, pontes estreitas.

A jornada do motorista: uma cobrança em cada esquina

Antes de falar do buraco, vale lembrar quantas vezes o mesmo carro passa pelo caixa do governo:

  1. Na concessionáriaIPI, ICMS, PIS e Cofins embutidos no preço. Estimativas do setor falam em algo entre 30% e mais de 40% do valor do carro zero.
  2. No emplacamentoTaxas de registro e licenciamento para o carro poder rodar.
  3. Todo anoIPVA, sobre um bem que você já pagou, imposto incluído. RECORRENTE
  4. Em cada abastecimentoICMS, PIS, Cofins e Cide no litro do combustível. RECORRENTE
  5. Na rodoviaPedágio, a cada praça, em cada sentido.
  6. No radarMulta, quando acontece. E ela tem regra própria de destino, como você vai ver abaixo.
  7. No buracoPneu, roda, suspensão e alinhamento. Essa conta não tem boleto do governo: é toda sua.

O IPVA que nunca termina de pagar o carro

Vamos fazer uma conta simples. Um carro de R$ 80 mil em São Paulo, onde a alíquota para automóveis é de 4%. Supondo que ele perca cerca de 10% do valor por ano, veja quanto sai em IPVA ao longo de uma década:

Simulação · IPVA ano a ano

Carro de R$ 80 mil, 10 anos de IPVA em SP

Ano 1R$ 3.200
Ano 2R$ 2.880
Ano 3R$ 2.592
Ano 4R$ 2.333
Ano 5R$ 2.099
Ano 6R$ 1.889
Ano 7R$ 1.700
Ano 8R$ 1.530
Ano 9R$ 1.377
Ano 10R$ 1.240
Total em 10 anosR$ 20.840

Simulação ilustrativa: alíquota de 4% e desvalorização de 10% ao ano. O valor real depende da tabela venal de cada ano e do estado.

26%do preço do carro devolvido ao governo só em IPVA, em dez anos. Sem contar o imposto que já estava na compra.

E as estradas, como estão?

A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 percorreu mais de 114 mil quilômetros de rodovias pavimentadas, incluindo toda a malha federal, as rodovias concedidas e as principais estaduais. O resultado melhorou em relação a 2024, mas ainda está longe do que se espera de quem paga tanto:

Pesquisa CNT de Rodovias 2025 · estado geral

  • Ótimo10,1%
  • Bom27,8%
  • Regular43,0%
  • Ruim ou péssimo19,1%

Os trechos ruins ou péssimos caíram de 26,6% em 2024 para 19,1% em 2025. Ainda assim, são mais de 21 mil quilômetros nessa situação.

E a estrada ruim custa caro mesmo para quem não é caminhoneiro. Segundo a CNT, a qualidade do pavimento eleva em média 31,2% os custos operacionais do transporte rodoviário: mais combustível, mais desgaste, mais tempo. Esse custo aparece depois no frete e, claro, no preço de tudo o que você compra.

O asfalto bom tem dono: é da concessionária. O buraco é público.

Tem um detalhe revelador na própria pesquisa: a CNT atribui boa parte da melhora às concessões. Nas rodovias concedidas, os trechos ruins ou péssimos caíram 61,6% em um ano. Traduzindo: a estrada melhora quando passa a ter mais uma cobrança, o pedágio. O IPVA que você já pagava continua lá.

Só São Paulo: quanto entra e quanto faltaria

Estado de São Paulo · em bilhões de reais

IPVA arrecadado x o que a CNT estima para recuperar as rodovias paulistas

IPVA totalR$ 30,4 bi
Parte do estadoR$ 15,2 bi
Recuperar estradasR$ 5,7 bi

IPVA 2025 previsto pela Sefaz-SP; metade fica com os municípios. A estimativa de R$ 5,74 bilhões para recuperar as rodovias paulistas é da Pesquisa CNT de Rodovias 2025. São Paulo, vale dizer, tem as rodovias mais bem avaliadas do país.

A comparação não quer dizer que todo o IPVA deveria ir para o asfalto. Hospital, escola e segurança também custam. Mas ela mostra uma coisa simples: dinheiro não é o problema. Falta é vínculo entre o que se cobra do motorista e o que se entrega a ele.

Para onde cada cobrança vai, segundo a lei

A cobrança
O que a lei diz sobre o destino
IPVAImposto sobre a propriedade do veículo.
Caixa geral. A Constituição proíbe vincular imposto a uma despesa específica. Metade vai para o município do licenciamento.
MultaPenalidade por infração.
Destino exclusivo: sinalização, engenharia de tráfego, fiscalização e educação de trânsito. O órgão deve publicar todo ano quanto arrecadou e onde aplicou.
Cide-CombustíveisContribuição no preço do combustível.
A Constituição prevê uso em programas de infraestrutura de transportes, entre outros fins.
PedágioTarifa pelo uso de rodovia concedida.
Remunera a concessionária, conforme o contrato de concessão.

Repare: das quatro cobranças, justamente a mais pesada para a maioria das famílias, o IPVA, é a única sem qualquer compromisso com o lugar por onde o carro passa.

O que você pode fazer agora

  • Procure o demonstrativo de multas do Detran do seu estado e da sua prefeitura. O Código de Trânsito obriga a publicação anual.
  • Não achou? Pergunte. Pela Lei de Acesso à Informação, peça quanto foi arrecadado com IPVA e multas e quanto foi investido em conservação de vias. O órgão tem 20 dias para responder.
  • Registre o buraco. Use o canal da prefeitura (vias urbanas), do DER do estado ou do DNIT (rodovias federais) e guarde o protocolo.
  • Teve prejuízo? Dano causado por buraco em via pública pode gerar pedido de indenização contra o órgão responsável. Fotos, boletim de ocorrência e notas fiscais do conserto ajudam.

Ninguém aqui está pedindo estrada de graça. A gente já paga, e paga muito. O que a gente pede é que a conta, finalmente, venha acompanhada de asfalto.

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