Na entrevista de emprego, falaram em R$ 4 mil. Você comemorou. Aí chegou o primeiro holerite e o número no fim da folha era outro. E tem uma coisa que ninguém te mostrou: para a empresa, você não custa R$ 4 mil. Custa quase R$ 6,5 mil.
Entre o que o patrão paga e o que cai na sua conta, existe um buraco. E quem mora nesse buraco é o governo.
O holerite, linha por linha
O lado da folha que você nunca vê
Além do que sai do seu salário, a empresa paga outra montanha só por ter você registrado. Para empresas no Lucro Presumido ou Real, são 20% de INSS patronal, mais o seguro de acidente de trabalho, mais as contribuições para o Sistema S e outras entidades, mais 8% de FGTS. E tudo isso incide também sobre o 13º e as férias, que precisam ser guardados mês a mês.
Para onde vão os R$ 6.488 que a empresa gasta por mês
- Seu líquidoR$ 3.631
- Governo (INSS e contribuições)R$ 1.697
- 13º e férias (provisão)R$ 778
- FGTSR$ 382
Simulação ilustrativa para empresa fora do Simples Nacional: INSS patronal de 20%, RAT de 2%, terceiros de 5,8% e FGTS de 8%, incluindo os encargos sobre 13º e férias provisionados. No Simples, a contribuição patronal é diferente e costuma ser menor.
Seu chefe paga R$ 6,5 mil. Você recebe R$ 3,6 mil. E os dois saem achando que o outro é que está levando vantagem.
Por que isso deveria te revoltar
Porque esse modelo empurra todo mundo para o lado errado. A empresa olha o custo e contrata menos, ou contrata como PJ, sem férias, sem 13º. O trabalhador olha o líquido e acha que ganha pouco porque o patrão é pão-duro. E no meio disso, a maior fatia vai para quem nem estava na sala de entrevista.
E o FGTS? É seu, mas fica preso, rendendo historicamente menos do que muitos investimentos simples, e você só mexe nele nas hipóteses que o governo permite.
Para ser justo: a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, em vigor desde 2026, foi um alívio real para milhões de pessoas. Mas ela não mexeu no peso do INSS, nem no custo da folha para quem contrata.
O que a gente exige
- Holerite transparente: todo contracheque deveria mostrar também o que a empresa pagou de encargos. O trabalhador tem direito de saber quanto custa.
- Desoneração da folha para quem gera emprego formal, especialmente o pequeno.
- FGTS que renda de verdade, ou com mais liberdade para o trabalhador decidir.
Teste em casa: pegue seu holerite, some 20% de INSS patronal, 8% de FGTS e 1/12 de 13º e férias sobre o bruto. Esse é o seu verdadeiro salário. O que você recebe é o que sobrou.
Fontes para consulta
- INSS: tabela de contribuição 2026 (teto de R$ 8.475,55)
- Receita Federal: tabela do IR 2026 e isenção até R$ 5 mil
- Lei 8.212/1991 (contribuições previdenciárias da empresa)
- Lei 8.036/1990 (FGTS)
Consulta em outubro de 2026. Cálculo ilustrativo; percentuais de RAT e terceiros variam por atividade, e empresas do Simples têm regras próprias.